Soninho bom o de hoje não? Tá bom, vou deixar a ironia de lado. Nunca te vi assim tão agitado enquanto dormia, o que é isso, saudade? Andas meio atormentado, eu percebi. Não que saibas que eu sei disso, afinal ficar de observando de binóculos foi uma tática bem esperta da minha parte.
Achas a essa altura que eu estou em Bali ou em Havana, mas ao invés disso, estou do outro lado da rua. Escondida por detrás de uma cortina bege e velha que gentilmente peguei da vovó. Não fui ainda, ainda não deu pra me desvincular dessa história toda, é meio que um ciclo vicioso, eu e você.
Estou pensando em deixar uma rosa na soleira da tua porta, mas isso seria um sinal de que eu não fui e eu não quero que tenhas esperanças em relação a mim, porque eu vou. E não vai demorar muito não. As malas nem foram desfeitas. Estão empilhadas em frente a porta de saída.
Não passo meus dias aqui, só venho pra te ver dormir. E tem sido cada vez mais estranho. Nunca trazes ninguém em casa, o que me leva a crer que ainda não seguiste adiante ou que andas fazendo isso por outro lugar. Não arrumas a cozinha há quase três semanas, tem montes de roupas empilhadas e a tua secretária eletrônica tem umas 24 mensagens não vistas (que eu me arrisco a dizer que são da tua mãe).
Vi as minhas cartas empilhadas ao lado da tua cama e vi que tens o hábito de lê-las todas as noites antes de dormir, e a minha foto continua no mesmo lugar. Olhas para ela distante, como se isso fosse fazer alguma diferença na distância que puseste entre nós dois.
É meio patológico o meu comportamento, de fato, mas sabe, pensando bem o teu é bem mais. Fazes isso tudo e nem tentaste entrar em contato comigo. Meu antigo celular ainda existe apesar de eu ter dito que o desligaria. Se você realmente quisesse, teria tentando mesmo que em vão falar comigo.
Não me procuraste na casa de minha mãe, pessoa que você sabe te falaria na hora do meu paradeiro. Você é estranho, distante e lacônico. A propósito, desde quando tens o hábito de escrever? Nunca tinha visto isso, será que escrevias enquanto eu dormia? Será que somos mais parecidos do que eu pensava? Talvez sim, talvez não.
Bom, eu vou viu? Mas antes, vamos nos cruzar mais uma vez. Daqui a mais ou menos seis dias. Você vai me ver, eu vou ver você, vamos nos comportar como duas pessoas civilizadas, falar somente o necessário. E eu vou embora. Ou tudo pode ser diferente, mas eu, particularmente, duvido muitíssimo.
Depois desse breve encontro entre nós, eu te deixarei claro que eu fui e você vai saber dessa vez que é verdade. Como você vai se comportar eu realmente não sei. Espero que sem faltas de ar, angústia, choros desesperados, sensações de vazio... Espero que supere mais rápido do que eu. Afinal foi você quem escolheu essa estrada, sem me deixar alternativas.
Aliás... Que alternativas teria eu, não é mesmo? Um recado antes de partir: espero que você se encontre, meu caro. Compre um cachorro, ou um gato, ou um peixe, sei lá... Procure mais por seus amigos, não se perca de seus pais, liga mais para sua irmã ou mesmo para suas primas. Vá mais vezes a praia, ao shopping, à praça, ou a qualquer lugar que te agrade, mas tira o mofo tá?
Procura ser feliz e te permite amar alguém como eu te amei. Se queres saber como eu sigo eu posso te contar. Uns quilos mais magra, com umas olheiras, dores, marcas a mais. Madura e segura de mim, de quem sou e do que sinto. Aprendi muito, vou ensinar agora. Antes de ir ainda devo te escrever alguma coisa.
Antes que você acorde, vou tirar meu binóculo da janela, não posso e nem quero comprometer meu disfarce super-secreto. Fica em paz, perdido.
[Trecho retirado de: Borboleta, uma história de amor.]
Um comentário:
Olá!
Há tempos visitei - digamos que acidentalmente - o seu blog, e desde então tenho acompanhado seus textos.
Não me pronunciei antes por não saber o que falar, mas surgiu-me agora uma dúvida: Você já citou algumas vezes o livro "Borboleta, uma história de amor", e como todos os outros textos do blog, os que posta desse livro são de uma peculiaridade incrível. Mas... que livro é esse? Quem o escreveu?
Eu criei um novo blog há pouco, ograveerrodepensar.blogspot.com, se você puder responder sobre esse livro, ficaria muitíssimo grato.
Parabéns pelos textos. Garanto que não são quaisquer obras que me instigam assim por tanto tempo.
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