"É meu amigo eu sei que prometi sempre andar do teu lado. Sei que disse coisas e mais coisas sobre nossa amizade e cumplicidade, mas sabe, cansei um pouco disso. Se queres partir, ir embora, eu nada posso fazer, além de abrir a porta e acenar pra ti do portão.
Porque sabe, eu aprendi que de nada adianta te amar tanto assim se você não quer que eu te ame tanto assim. Aprendi a te olhar da janela do carro e ser feliz só te olhando de longe. Vi que posso ser feliz sem ti ou contigo, tanto faz.
De fato a felicidade não é a mesma, mas o que eu posso fazer se você não me ama tanto assim. Vou dar uma volta e não vou me desesperar, você vai voltar. Você volta toda vez. E se não voltar dessa vez, alguém vai voltar no seu lugar.
Eu não hei de padecer. Eu vou ser feliz. E um dia, meu caro, vamos nos encontrar pelas estradas da vida, pelas estradas do amor, por aquelas que a maldita esperança trilha para todos nós. Vamos nos cumprimentar gentilmente e seguir ou parar e conversar para saber como o outro tem passado.
Depende do dia, da hora, da pressa. Depende da companhia, do humor, do estado de espírito. Pode ser que eu viaje pra bem longe de você e das minhas dores, inevitáveis no caso do seu abandono, e quem sabe te mande uma carta lá de Bali dizendo que te amo e que sem ti não sei viver.
Isso é claro, dois ou três anos depois, do teu súbito desaparecimento do meu cotidiano. Vou mandar a carta sem querer saber se estas casado, namorando, noivo, enrolado ou mesmo solteiro. Vai ser uma carta de aviso, uma que vai ter escrito na última linha o número do meu vôo e o dia do meu retorno.
E o destino vai me dizer assim que eu pisar em Paris se você foi ou não. Se você for, bom, escreveremos um futuro juntos e seremos (sem dúvida alguma) felizes para todo o sempre. Se você não for, eu seguirei por Paris e por toda a Europa e depois vou girar o globo no dedo como quem gira uma bola e vou escolher o meu novo destino.
Vou torcer para que esse seja o mais distante de você possível. Mas é possível e provável que meu globo pare na direção mais rápida ate a sua casa e até do seu coração. E então eu vou bater a porta de onde quer que você more, às três da tarde de uma sexta feira santa e vou te pedir um copo d’água.
Não vou me preocupar se uma loira vestida em uma das camisas que eu te dei abrir a porta, eu vou entrar mesmo assim, sentar-me-ei na tua sala, verei toda aquela cena ridícula, tomarei três calmantes trancada no teu lavabo e sumirei de vez da tua vida. E você saberá disso, porque receberá essa carta assim que despertar essa manhã.
E o mais incrível de tudo é que digito enquanto dormes tranquilamente ao meu lado, depois de uma noite de jantar italiano a luz da lua no telhado do meu apartamento e eu estou aqui prevendo o pior dos futuros pra nós dois.
Veja bem, meu bem, quem espera coisas ruins fica feliz com as coisas boas que recebe. E o máximo que eu ouso pedir no momento é pra poder te ver acordar lindo e feliz com aquele sorriso infantil, dizendo que me ama e que não quer me perder.
Ai, eu vou esquecer os problemas do meu mundo conturbado pela loucura da minha cabeça e do meu dia-a-dia e você vai ler isso aqui e vamos seguir as nossas vidas. Mas caso tudo de errado, você saberá o que fazer."
{Trecho retirado de: Borboleta, uma história de amor}
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