Cólica dói, prender o dedo na porta também, mas a dor de não ter é a pior das dores que eu já conheci na vida. A dor de não saber. Não saber como tem passado, se conseguiu aquele anel que sempre quis, se cortou o cabelo ou se deixou crescer, se mudou o estilo ou continuou como aquele de antes.
Não saber se ainda guarda aquelas fotos, aquelas cartas, se ainda escuta aquelas músicas. Se ainda pensa naqueles momentos, se sente saudade como sentia antes, se aquele aperto no coração foi enfim embora ou se, se consolidou de uma vez.
A dor é não saber. Não saber se gosta mesmo ou se isso é tudo arrumação, não saber não ter certeza. Não poder ver, não poder tocar, sentir o cheiro, ouvir a voz. É perder a convivência tão freqüente, os hábitos das ligações.
A dor agora é saber... Saber do telefone que não vai mais tocar todo dia mais ou menos na mesma hora, das cartas tão prometidas que não vão chegar, das orquídeas sempre mencionadas, mas nunca entregues... Saber que agora as tardes de sábado e as noites de domingo vão ser ocupadas com qualquer outra coisa, menos com você.
A dor saber que não há remédio pra essa dor, senão o tempo. Saber que esse oco vai permanecer assim, ecoando o vazio e a ausência de você. Que a cabeça vai pensar e o coração vai se debater fraco e sem vida aqui dentro. E saber também que pra qualquer outra dor, têm-se soluções, menos pra essa. Não há remédio, não há cura.
Liberdade é amarga, a saudade também. Saudade é amarga, azeda e com gosto meio “travoso”, fica presa na língua, junto com as palavras muito pensadas e nunca ditas. Com pensamentos tão confusos e tão doidos, que não deixam o coração ficar em paz. Junto com um coração apertado de tanta dor, que tenta se esconder do mundo. E com os olhos tão marcados pelas lágrimas, que negar o choro é até ridículo.
Dizer que a esperança morreu é mentira. Essa maldita que do peito da humanidade fez moradia insiste e persiste em crer que há volta, que há motivos para acreditar e a voz que vem junto com ela grita, ou melhor, rouca e quase muda sussurra lá dentre ‘vai, vai que é ele’.
Enquanto o pobre amor me pede, me implora, chora e geme dentro de mim, pedindo pra que eu não desista. Não desista de ti, não desista de mim, não desista da vida. Me pede pra não deixar passar, me pede pra fazer alguma coisa, alguma coisa que eu não posso fazer. Perdi forças com tuas palavras, me perdi dentro de ti, mas antes me perdi dentro de mim mesma e não consigo mais me encontrar.
Eu não tenho nada pra fazer agora, e nem consigo fazer nada agora. Mas com felicidade eu digo que a cada dia que vai passar eu vou acordar precisando menos de você. Felicidade em partes, porque eu sinto muitíssimo precisar me sentir assim. Mas como você escolheu o seu futuro, me obrigando a aceita-lo, vou ter que conviver com isso.
Vou ter que ser feliz de novo. Mas a dor de não saber, essa meu caro, me perdoe mas vai me acompanhar.
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