Sabe, hoje depois do nosso jantar tailandês, você deitou e dormiu de forma não romântica no meu sofá, assistindo ao jogo do Flamengo. E ao invés de me irritar, eu sentei pra escrever. Sei que você vai negar que dormiu, mas tudo bem. Quando você ler isso, já vai ser bem tarde.
Você tem sido frio comigo ultimamente, acho que isso se deve ao fato de que você tem trabalhado muito, e espero que seja isso mesmo. Não me queixo, eu te entendo. Entendo até mais do que gostaria e suporia em qualquer ocasião entender.
Mas sabe, toda vez que você é distante, eu sou acometida de dolorosas faltas de ar. Sim, faltas de ar, creio eu que semelhantes a uma crise de pânico, tenho surtado a sua ausência e seus maus tratos.
Passo mal com a sua distância. Não sei viver longe de você. E você mora muito longe de mim, e parece ter escolhido viver bem longe também. Você escolheu a sua locação e arrastou meu coração contigo, deixando minhas vísceras expostas sem muita dó ou piedade.
Sem o menor sentimento, ou remorso, me tratas como se eu fosse mais uma, e eu por entender ainda te preparo jantares e te cedo meu sofá, minha compreensão, meu amor. Sou eternamente escrava dessa paixão, do desejo de te ter ao meu lado. Sou escrava de ti e de meus sentimentos.
Sou uma refém entorpecida do amor que nutro, sem esperanças de reciprocidade, de ti. Acho que vou embora, estou me sentindo muito mal. Quando acordares, apague as luzes e deixe a TV ligada pro cachorro não se sentir só.
Os pratos eu já lavei, tua roupa de ontem, está limpa perto da porta do meu quarto. Se quiser ficar, guarde-as de novo no armário de onde elas nunca deviam ter saído. Caso contrário a mala fica no maleiro do lado da porta de entrada. Faça bom uso, não precisa devolver.
Caso escolha o caminho do mundo, esqueça esse endereço também, pretendo me mudar pra onde você não possa mais me encontrar e só quando eu quiser volto a bater na sua porta, sem remorso de ter ido, mas com todo de ter voltado.
Desculpa se eu sinto de forma diferente, sou artista, poetisa, você deveria saber disso quando se envolveu comigo. Minha vida é melodrama, novela de TV (mexicana), sou assim coração exposto. E agora, esmigalhado e humilhado por falta de amor.
Sinto que estas quase acordando, parece que tiveste pesadelo, vou deixar a carta embaixo do pote de castanhas. Sei que quando levantares desse sono vai à geladeira procurar água e logo verás os escritos. Não só esse, como todos os que eu já escrevi pra ti.
Ou posso te dar de presente de aniversário, uma semana não faz diferença pra amargura do meu coração. Vou ver, vou pensar. Estas acordando, vou fingir que nada aconteceu.
[Trecho retirado de: Borboleta, uma história de amor]
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