Olhei a tarde cair púrpura pela janela do meu quarto enquanto pensava sobre a vida e sua brevidade. Pensei em tudo o que já vivi e nas experiências que carrego sobre meus cansados e machucados ombros.
Pensei muito em mim, mas pensei em você também. Pensei em ‘porquês’, e em muitas respostas aos meus ‘porquês’. Vi que naquele raro momento racional (e não passional) meu, eu via as coisas tão claras quanto as águas da Antártida (até consegui aprofundar-me uns 80 metros a mais na minha tão obscura mente).
Fui passear pelo mundo, sozinha, então, na tentativa de encontrar mais respostas. Perguntas e mais perguntas não paravam de se formular em minha mente e eu precisava urgentemente de certeza dentro de mim, precisava dar um rumo a minha vida e não podia fazer isso com a cabeça cheia de grilos.
Para começar o passeio, andei sobre toda a extensão da Muralha da China mais de mil vezes repetindo e repetindo esse momento em mim, para ter certeza que não cometeria nenhum erro em minhas análises. Perguntei-me e respondi-me tudo, mas tudo mesmo, o que você possa imaginar. Descobri que um mais um é sempre dois e que certas coisas nunca vão mudar, mesmo que você faça alpinismo no Everest e escale a dentes a Muralha da China.
Fui, depois, à Petra visitar as esculturas em pedras que o mundo todo consagrou. E vi que assim com aquelas pedras, meus sentimentos e certezas são firmes e estão marcados em mim para nunca mais se apagarem. Talvez a forma até mude um pouco, o tempo os modifique, mas nada os destruirá (e isso vem de encontro com as suas certezas sobre a minha ‘volatilidade’). Vi que tudo o que amo realmente e preservo em mim, são como aquelas pedras, eternas apesar das adversidades do ambiente.
Segui rumo ao Rio, olhei para o Cristo Redentor e pedi que depois de tudo o que eu tinha descoberto, ele me abençoasse e me permitisse ter para sempre em mim tudo aquilo de belo que eu havia descoberto. Pedi saúde e condições de te levar comigo um dia por essa mesma jornada, na chance de te fazer entender a beleza real das coisas. Que a propósito, não estão visíveis aos olhos da carne. Fui à praia, ‘lavei a alma’, vi o pôr-do-sol enquanto passava a mão em um vira-lata que se sentou compreensivamente ao meu lado.
Ao raiar do dia, continuei o meu passei e vaguei um pouco pelos terraços de Machu Picchu para desanuviar a mente de tudo e relaxar o meu corpo tão cansado de tanto pensar. Fui ao topo de Chichén Itzá e gritei aos quatro ventos o teu nome (espero que tenhas escutado lá no fundo do coração) e claro aproveitei para dar uma olhada na paisagem, linda de morrer, por sinal, de morrer não de viver. Tive vontade de viver, muita vontade de viver! E resolvi que viveria melhor a partir daquele momento.
No final daquela mesma noite eu fui ao Coliseu de Roma e massacrei lá, como os antigos, os meus próprios elefantes, panteras e leões. Julguei ali o meu amor, fui julgada por ele também e no final das contas entramos em acordo, creio eu. Jantei, tarde da noite, em uma cantina e dormi um pouco, mas não foi um jantar qualquer foi um com tudo o que eu tinha direito, com exceção da companhia, que era você e a essa altura estava vagando pela sua própria mente, em sua própria viagem particular. Digamos então que jantei com tudo e com a sua ausência também.
E para finalizar a minha redescoberta de mim e de você fui ao Taj Mahal. Que grande ironia não? Uma das maiores provas de amor da humanidade sendo apreciada por uma alma solitária como a minha. Em todo aquele mármore branco, nos fios de ouro e nas pedras preciosas eu vi o amor de um homem por uma mulher.
Não que o amor precise ser demonstrado atráves de coisas materiais, mas o amor daquele homem foi tanto que ultrapassou a barreira do racional (assim como o meu) e deu a sua amada o que ele julgou ser o mais perfeito dos palácios. E acredite, deve ser mesmo! Me identifiquei um pouco com ele, senti que se condições tivesse, talvez fizesse o mesmo para alguém.
Vi ali, naquele lugar, naquele momento que eu já tinha construido o meu próprio Taj Mahal, em menores prorporções e sem tanto luxo, de fato. O meu era apenas um lugarzinho especial dentro de mim, o teu recanto, onde anos e anos poderiam se passar e ainda sim permanecerias ali. Intacto, incólume as forças do tempo.
Girei o mundo para ver as sete maravilhas da modernidade e não consegui encontrar sentido na beleza daquilo tudo sem alguém ao meu lado. Tudo o que eu consegui ver foi a falta que um alguém (“um você”) fazia na minha vida, e confesso, não me conformo com isso.
Como eu, em face de tanta beleza, de tanta maravilha não pude tirar você da cabeça e nem sequer no coração. Fiz então o percurso de novo, só que dessa vez com o propósito de te esquecer. Tentei te jogar da Muralha da China, te perder nas areias de Petra, pedi ao Cristo que te tirasse de dentro de mim... Escondi-me de ti por entre os terraços de Machu Picchu, gritei contigo do topo do Chichén Itzá, lutei contra ti e contra o amor que eu sinto dentro do Coliseu e morri no Taj Mahal
E por quê? Eu também não sei. No fundo, esse paradoxo que és, acaba sendo tudo o que eu tenho. As sete, oito, nove, mil.. maravilhas do meu mundo antigo, moderno, futuro. E depois de tudo eu não faço mais questão de mudar nada. Por que eu sou assim?
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